Eleições UEPB: Andrade promete
O jornal A União publica,
em sua edição deste domingo, a segunda entrevista com os candidatos a
reitor da UEPB. José Cristóvão Andrade, 49 anos, há 20 é professor da
Universidade Estadual da Paraíba. Graduado em licenciatura e bacharelado
(política) em Sociologia (UFPB), especialista em Metodologia da Ciência
(UEPB), mestre em Sociologia (UFPB). Foi coordenador adjunto do curso
de Filosofia (UEPB), ex-diretor de Centro de Educação da UEPB, ex-chefe
de Departamento de Filosofia e Ciências Sociais, Andrade é presidente da
Associação dos Professores da UEPB (ADUEPB), e quer levar, agora, sua
experiência para a reitoria.
Porque o senhor quer ser reitor da UEPB? Qual a sua história com a Estadual?
Para
mudar o atual modelo de gestão centralizada e monolítica, buscar a
construção de uma universidade plural e democrática, livre do
partidarismo político e respeito aos movimentos sociais, estudantis, de
docentes e de técnico-administrativos.
Enfrentei
crises profundas e greves em 93, 95, 97, 99, 2001 e 2002, sendo esta
última a maior de todas. Ficamos dois meses acampados na praça João
Pessoa, inclusive celebramos o Natal junto aos moradores de rua. Esta
greve durou 12 dias. Foi negociada a incorporação da gratificação
isonômica dos docentes e dos técnicos, houve discordância pelos técnicos
e a confusão foi grande. Com o final da greve em 1º de abril de 2002,
voltamos à sala de aula. Essa luta foi de grande importância para a
UEPB.
Em
2003 iniciamos nossa luta em defesa da autonomia, a reitora atual foi
para a Espanha e o pró-reitor de planejamento estava no doutorado em
Fortaleza. Quem assumiu a Aduepb foi o professor Matusalém, membro
também da comissão de autonomia. Nessa luta os membros da comissão pela
reitoria não se afinavam com o movimento sindical.
Caso o senhor seja eleito reitor da UEPB, o que aponta como principal desafio?
Construir
uma prática dialógica com todos os poderes constituídos e construir
caminhos para democratizar a gestão e valorizar o trabalho dos técnicos e
docentes.
O senhor pretende abrir novos campi? É possível a universidade avançar pelo estado sem comprometer a qualidade do ensino?
Não.
A forma de expansão feita quase monoliticamente pela administração
central não é o modelo adequado. Primeiro temos que consolidar o que já
criamos, depois ampliar os cursos nesses campi, resolver a transposição
dos técnicos e docentes do ensino médio da escola técnica de João
Pessoa. Depois discutir a necessidade de expansão com garantia de
recursos do Estado e do Governo Federal. Acho um absurdo o Governo
Federal não contribuir com o mesmo percentual com o ensino superior
público das estaduais. Se apoia o setor privado, por que não apoia a
UEPB? Isso é um desvio de verbas públicas para o setor privado.
Criticamos a forma de expansão também de Araruna, que foi imposta pelo
governo da época. Criticamos a forma e o período. Os cursos criados não
atendem à realidade local. Defendo que haja um debate aberto com o povo e
vejamos que ou quais cursos devem melhor atender aos jovens da região.
Que também o curso criado seja da área de conhecimento da saúde ou
tecnologia: enfermagem ou biologia; ou engenharia agrícola ou da
produção. Expansão só com critérios pré-estabelecidos pelos conselhos
superiores e pela sociedade.
A UEPB tem problemas relacionados a baixo desempenho de alguns cursos? Quais?
Filosofia, por falta de estrutura adequada, de docentes e núcleos de pesquisa.
Existe um projeto para otimização da infraestrutura do campus de Bodocongó. É possível tornar esse projeto uma realidade?
Sim,
desde que a universidade priorize os problemas existentes e crie
mecanismos de participação pela comunidade acadêmica. Só será viável com
um bom planejamento administrativo. Isso a UEPB não tem mais.
É possível manter uma política de valorização do professor e dos servidores técnicos sem estourar o orçamento?
Sim.
O planejamento e o exercício financeiro são fundamentais para o sucesso
do plano. O que vale aí é a proposta de negociação, o diálogo é
fundamental.
Caso
seja eleito, ao assumir tem planos para promover algum enxugamento da
estrutura da universidade, sobretudo no que se refere a pessoal
comissionado e terceirizados?
Sim, a UEPB precisa rever sua estrutura de abrigo de pessoas com os devidos critérios defendidos pelo movimento docente.
Como o senhor analisa a atual gestão, que tem à frente, desde 2004, a reitora Marlene Alves?
No
primeiro mandato, embora com algumas exceções, se interviu muito nas
disputas nos centros, nos departamentos e nas coordenações. No segundo
período tudo foi agravado.
Quem o senhor apoiou nas eleições para reitor de 2004 e 2008?
No primeiro mandato fui coordenador de campanha (de Marlene Alves), no segundo mandato preferi não me envolver tanto.
Há, nesse momento, um desgaste na relação entre o Governo do Estado e a reitora Marlene Alves. Como o senhor analisa essa crise?
A
falta de diálogo entre ambos. Isso só aconteceu neste ano. E os demais?
A saída é a negociação política já para resolver a crise e a greve dos
técnicos desde o dia 5 de março. Desde 2011 que a reitoria não cumpre as
datas-base das duas categorias.
O Fato de a reitora Marlene Alves ser pré-candidata a prefeita de Campina Grande interfere de alguma forma nessa crise?
Claro que sim. O PC do B, por ser um partido de oposição ao governo, não ajudou em nada sua decisão, complicou ainda mais.
Caso seja eleito, como o senhor pretende contornar essa crise de relações com o governo? É possível chegar a um consenso?
Com
diálogo muito problemas são resolvidos. Sempre pautei pelo diálogo. A
UEPB é maior que os interesses pessoais e de grupos. Farei o que for
preciso para trazer a paz de volta. Os alunos estão sendo prejudicados.
Tudo começou com o prolongamento irresponsável do inicio do semestre de
2012. A mobilização aconteceu tardiamente. Tudo foi articulado para se
ter as eleições de reitor no silêncio.
Falta transparência na UEPB? É possível tornar a administração mais transparente?
A
participação de toda comunidade acadêmica nos debates é fundamental,
começando pelo orçamento participativo e criação de um conselho social.
Os recursos da UEPB precisam de um plano diretor mais competente e
transparente. Hoje não temos isso, tudo quem manda é a reitora.
No
ano passado e também este ano, houve sérios debates no âmbito da
universidade diante de propostas de greve. Qual foi sua posição nestes
dois momentos? Foi contra ou a favor da greve?
Em
2011 não achei interessante haver greve depois de uma negociação. A
reitoria assegurava isso e garantiu 8,5% e os demais 4,5% ficavam para
setembro. Este ano, após toda tentativa de negociação e tudo negado,
tive que defender a unidade da greve com os servidores técnicos. Esta
proposta a assembleia não aceitou e preferiu a continuidade da
negociação. Até agora nada de acordo, apenas uma proposta indecente de
uma gratificação de 5% sem retroatividade.
O
processo eleitoral municipal, com eleição para prefeito e vereador, de
alguma forma tem interferido na UEPB nos últimos meses? E pode estar
interferido no processo para eleição da reitoria?
Tem
interferido sim. Nossa proposta era colocar as eleições para o mês de
agosto ou pós- eleições. A data de maio não permite um debate justo com a
comunidade. Defendo ainda o fim da reeleição e mandato de 5 anos. Fora
de eleições, ou seja, de ano eleitoral. A UEPB deve ser prioridade e não
minha tática política.
É
possível manter uma campanha pela reitoria em alto nível? Essa eleição
pode dividir os professores e servidores técnicos com efeitos que se
prolonguem até depois do processo eleitoral?
A
democracia interna está quebrada e rasgada. Vejam o calendário das
eleições de reitor: inscrição de 16 a 20 de abril e homologação só no
dia 26 de abril. O processo eleitoral ficou apenas para 15 dias. Como
fazer uma campanha apenas nesse período? São oito campi. Esse processo
eleitoral ficará na história da UEPB e promete ser bastante acirrado.
Como enxerga o futuro da UEPB a curto, médio e longo prazo?
Acredito
numa nova UEPB. A autonomia tem que ser consolidada. O projeto atual
tem implicado em crises tamanhas. Não basta apenas criar campi, temos
que estruturar e consolidar. Esse é o problema atual, a realidade de
toda UEPB carece de um plano diretor que a curto prazo garanta a
estabilidade da gestão com a negociação da greve e garantia das
atividades. A médio prazo o melhor investimento nos campi e nas
licenciaturas. A longo prazo a consolidação dos núcleos de pesquisa e
criação de mestrados e doutorados em todos os cursos.
Tudo
isso tem que estar relacionado ao projeto de desenvolvimento econômico e
social do Estado. Pesquisa tem que priorizar a retirada dos problemas
sociais e fim da miséria. O povo pobre também banca a universidade. A
UEPB sempre contribui com o desenvolvimento social do nosso Estado.
Poderá fazer mais com ampliação das parcerias com o setor produtivo
local e nacional. O governo federal pode ajudar muito nesse propósito.
Criar um hospital universitário para ampliar a pesquisa e extensão e um
instituto de meio ambiente e desenvolvimento sustentável pode garantir à
UEPB um futuro promissor. A UEPB nesta perspectiva pode avançar muito,
muito mais: plural, democrática e com responsabilidade de gestão.
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