O meu coração abriu uma janela para o passado e pede licença à saudade, para contracenar com a minha infância.
O palco é uma cidadezinha graciosa da Paraíba que é berço de várias personalidades. A minha terra natal, Juazeirinho. Ali, vivi luzes de encantamentos e aprendizados preciosos enquanto crescia. Na minha inocência emocional, lá não era apenas a minha pátria e sim o lugar mais "intenso" do planeta.
Vivíamos os Anos Dourados. Tínhamos informações sobre o resto do mundo, através de filmes do cinema de Antônio Cordeiro, bem como com leitura de grandes jornais e revistas (a exemplo de O Cruzeiro, a Veja da época) que adquiríamos com o comerciante João Vital, também ativista cultural da cidade. Mesmo assim, nenhum lugar para mim, era mais mágico que Juazeirinho.
Hoje, encenando a felicidade daquele tempo, tenho certeza disso: naquela terra, as manhãs eram realçadas pelo sol amigo que moldava ricas paisagens bucólicas, enquanto eu e meus irmãos seguíamos a caminho da escola, na qual minha mãe Maria Letícia Freire Irineu era uma bonita e inteligente professora. Eu a chamava de meu Girassol.
As tardes eram enriquecidas de poesia e romantismo com novelas radiofônicas e verdadeiras pérolas da MPB. Foi assim, que sutilmente, fiz minhas primeiras viagens às questões profundas da existência, enquanto despertava em mim o lado criativo que herdava do meu amado pai, o poeta e comerciante bem sucedido do lugar, Manuel Irineu da Silva.
O entardecer era envolto dos mistérios da fé: havia em cada casa, um oratório ou pequeno altar, onde se rezava a hora da Ave Maria. À noite, o jantar por mais comum que fosse, tinha o sabor de união familiar. Quando o velho motor de energia elétrica da cidade resolvia falhar, aproveitávamos o aconchego do luar e das estrelas bordando as calçadas, para brincar com outras crianças de cantigas de roda.
Se os sinos da Matriz de São José, anunciava missa dominical, despertávamos para uma festa. Aquela, para mim, não era apenas uma igreja, mas um imponente pedaço do céu, onde fui batizada e fiz minha primeira comunhão em grande estilo com o querido padre Genur.
As quermesses, os eventos do clube social juazeirense e as dramatizações da minha escola, não só tinham sabor de vida e cores de realização, como foram primordiais para edificar essa personalidade extrovertida que tenho hoje.
Quando meus pais vieram residir em Campina Grande para que, os filhos continuassem os estudos, deixei aquela terra trazendo comigo, as raízes. Assim, saí dos Anos Dourados para os Anos de Chumbo da Ditadura Militar.
Meu irmão, mais velho, de tanto contar fábulas sobre nossa terra, logo recebeu o apelido de "Juazeirinho". Numa ironia do destino, hoje, Campina Grande possui uma rua com seu nome: Adenes Irineu. E que ele, após realizar importantes trabalhos na área de engenharia, faleceu aos 33 anos, em acidente automobilístico, deixando seis filhinhos.
A minha irmã caçula, Celeste Maria Irineu e Ribeiro por casamento, formou-se em psicologia e tem três filhos maravilhosos!
Eu, com o tempo descobri que os encantos da peça vida, a gente vai perdendo ao longo da caminhada da existência e os substituímos por ideais. Para começo de conversa, revelaram-me que eu que eu nasci na Casa de Saúde Dr. Francisco Brasileiro porque dei trabalho para vir ao mundo... sou de fato Campinense.
Descobri ainda, que minha mãe ficou órfã aos cinco aninhos de idade e separada dos irmãos e do pai, foi então entregue a uma tia que a internou, pré-adolescente, num colégio rigoroso em Palmares - PE, com mentalidade dos anos 20, dirigido por um parente, um Cônego bem velhinho da família Nóbrega. De lá, não saia nem de férias. Só saiu depois de formada, para logo se casar. Hoje, eu compreendo o medo absurdo que ela tinha de perder o marido.
Meu pai, poeta, sereno, símbolo de equilíbrio e determinação, resolveu ser apenas caminhoneiro de carros gigantes de sua propriedade e passou a viajar para todos os estados do Brasil, deixando-nos com muita saudade, sempre.
Quando fiz 15 anos, a festa foi ler "O Capital" de Marx e "O Príncipe" de Maquiavel, claro que escondido. Havia muita sede de conhecimento do meu ser, talvez por isso, me tornei uma jornalista. Livros como O Profeta, já não respondiam mais ao apelo da minha curiosidade intelectual.
Casei com 17 anos, tive dois filhos que são as minhas grandes realizações. Já estão casados, pós-graduados e são brilhantes em suas profissões. Fui militante feminista e contra a ditadura militar. Cada experiência forte me enriquecia e me deixava marcada pelos preconceitos da época.
Meu amado pai, minha referencia de amor incondicional se foi há 2 anos com 95 anos de idade, nos deixando uma saudade imensurável pela sua altivez, consciência, fé, dignidade e lindo testemunho de vida. Ainda estamos tentando lidar com sua ausência. Ele era poeta e suas poesias tem nos ajudado muito. Seu silêncio profundo parece dizer: "Combati o bom combate", guardei as armas. VENCI!... Deixe-me descansar em paz.
Minha mãe, após perder o seu único filho homem de forma trágica, desistiu de vez, de lutar pela felicidade. Hoje, aos 89 anos de idade, não anda mais e sua paralisia é psicológica. Agora, o lindo Girassol não gira mais, não gira bem...
Eu, aposentada com uma carreira profissional bem sucedida, além de alguns prêmios renomados, com o tempo mudei até a minha forma de ver Deus. Não sigo religião, a religião às vezes mata, sigo Jesus Cristo, o Ser perfeito que de tão grande não coube na história da humanidade: teve que dividi-la.
A fé que tiro dos Seus ensinamentos me faz caminhar com dignidade. Às vezes, gosto de me sentir criança e procuro o colo de Deus. Tendo que voltar à realidade, reflito sobre pensamentos como este de Luiz Fernando Veríssimo: "Quando a gente acha que sabe todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas". Então, aspiro com a altivez do espírito de gratidão e digo-me: tenho muito mais a agradecer do que a pedir ao Autor da Peça da Vida. Obrigada Senhor!
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